terça-feira, 21 de abril de 2009

O fim último da vida não é a excelência!

Realmente este texto dá que pensar...


"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta
não aconselham temeridades.
Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da
benesse, não levam vidas descansadas.
Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa
ansiedade de contornos particularmente patológicos.
Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da
posição social e da fortuna familiar.

Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de
atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação
aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército
de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a
criança fosse um potro de competição.·
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas
sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com
sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão
geométrica para o infinito
É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho,
os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar
forte no Prozac.

É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais
queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos.
A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por
arrasar o mais leve traço de humanidade.

O que não deixa de ser uma lástima.·
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne,
saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a
felicidade!"

João Pereira Coutinho

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